Ao longo de suas existência, o Banhado proporcionou, a cada um de seus membros, inúmeras e raras oportunidades de malhar e ser malhado. Pra não perder o amigo, muito menos a piada, a gente conta algumas destas histórias, com a devida dose de exagero.
Matheus Roetger Madeira, Final de 2002.
Era uma noite de reunião para a galera do Banhado. E tinha tudo para ser uma noite bem comunzinha, bem típica. Nosso amigo Tefo se despedia de Tubarão e rumava para o Paraná, onde passaria a se dedicar mais aos estudos em busca da sua aprovação em um vestibular de medicina. Para se despedir, resolveu promover o seu já famoso churrasquinho - Tefo já havia se consagrado como expert no assunto junto à cúpula. Nada de muito nababesco, nada de muito fora de comum. Algumas carninhas, algumas cervejinhas, um bom bate-papo. Enfim, vocês sabem.
Depois de uma bela confraternização, regada a histórias, risadas e bom humor, o pessoal resolveu dar uma volta, olhar o movimento nos postos Texaco e Canário. Afinal, já estávamos por lá mesmo, e ainda tínhamos conversa pela frente.
Ao chegarmos nos postos. Bom, eles estavam vazios, sim. E o jeito foi buscar uma saída alternativa. Um bar - boteco mesmo - localizado ao lado do Dom Marco foi proposto por algum banhadense insano, provavelmente em tom de piada. E todos aceitaram o desafio.
Mesa posta, cadeiras puxadas, duas Skol, por favor. Começava a nova etapa da noite. Recordações surgiram sobre aquele lugar. Semanas atrás, um comboio banhadense havia presenciado um senhor fortemente embriagado ser expulso a toalhadas de recinto próximo. E, de fato, ele não era muito bem freqüentado. Era um local para profissionais do álcool.
Eis que se aproxima um bêbado peculiar. Senhor já de idade mais avançada (devia ter seus quarenta e tantos), barba muito por fazer - ou pouco mal feita, sabe-se lá -, obesidade saltando às vistas, dirigindo uma pouco discreta bicicleta vermelha. Aliás, uma bicicleta bem típica de bêbado: cheia de laços e fitas nos aros, caixote de madeira na garupa e, claro, símbolo do Flamengo como forro no selim. Era uma clara figuraça.
E o que faz todo velho bêbado, pudim de cachaça, que entra em qualquer lugar que conte com a presença de dois ou mais banhadenses? É claro que o insuportável pinguço começou a implicar comigo. Olhem a que ponto eu havia chegado! Um bêbado profissional, num bar que era a sua cara, entra no bar e resolve me perseguir, malhar do meu jeito de falar. Eu só pensava a que ponto eu havia descido, no que havia me tornado. Mas, como de costume, todo passo decisivo, nestas ocasiões, se dá num momento de distração. E eu a porcaria do erro boçal: me levantei e fui ao banheiro.
Nunca parei para estimar o tempo que eu levei lá no banheiro. Uma rápida aliviada nas necessidades básicas, uma lavada na mão, não mais que isso. E, quando eu voltei, o beberrão falava abertamente sobre "o pai dele" (se referindo a mim).
Pensei que aquela não seria exatamente o perfil típico de um amigo de Paulo Madeira, meu pai, mas a dúvida não perdurou muito. A minha inocência no diálogo me condenou:
- Você é mesmo filho do Paulo?
- Sim, sou - respondi, candidamente
Aí caiu a ficha. O berro dele esclareceu tudo: "Não acredito! Filho do Paulo Garcia!!". Como explicaria àquele pé de cana que meu pai era outro Paulo? Só pensei em uma coisa: "Blé, deixa assim mesmo". Não foi muito difícil imaginar como surgira aquela história. Quem conhece sabe que isto é a cara do Matos.
Daí em frente - o pinguço acreditava piamente que eu era filho do narrador Paulo Garcia - foram longos minutos de papo sobre a família Garcia. O único momento em que a história esteve perto de ser desmascarada foi quando ele se recordou que Garcia tinha apenas uma filha. Enfim, ele parecia não estar preocupado com meros detalhes. Não mais que de repente, para se despedir do pseudo-filho do Paulo Garcia, o pinguço avançou e me tascou um beijo na testa. Foi o fim mais digno à noite. Era o Carlos Eugênio Simon em pessoa.
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